domingo, 27 de maio de 2018

FÉ E CURA



Por Carlos Lula / Blog do Minard

A morte da maranhense e influenciadora digital Nara Almeida comoveu as redes sociais do Brasil durante a semana. Foram mais de quatro milhões de seguidores que acompanharam seu tratamento contra um raro câncer no estômago. Durante dez meses, uma árdua batalha contra a doença. A história de Nara deu esperança a pacientes e familiares que lutam contra a doença.

Mesmo no momento de maiores dificuldades, Nara nunca desistiu. Sua fé na cura da doença e crença no tratamento é o que fica como exemplo. Aliás, acreditar no tratamento, no médico, em si mesmo e na sua recuperação são extremamente importantes e podem ajudar, inclusive, no resultado e na cura de diversos problemas para quem padece de alguma enfermidade.

Se você perguntar para médicos se um deles já teve algum paciente que apresentou uma melhora surpreendente sem recorrer a remédios ou cirurgias, certamente a resposta será positiva. Não se trata de mágica ou alta tecnologia. Melhoras ou curas como essas começam a ser vistas pela ciência como provas da participação ativa da mente – com nossas emoções, crenças e expectativas – no tratamento de uma doença física.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Toronto, no Canadá, constatou que a fé pode diminuir a ansiedade, a depressão e o estresse. Os participantes realizaram um teste onde foram analisadas as atividades cerebrais dos indivíduos. Foi comprovado que a crença tem um efeito calmante, cuja consequência é a diminuição da ansiedade, bem como do medo de enfrentar o que nos parece incerto e desconhecido. Segundo o professor que capitaneou o estudo, também foram feitas pesquisas com Ressonância Nuclear Magnética Funcional, que demonstraram áreas específicas do cérebro que se acendem em orações ou meditações.

Já para Ricardo Monezzi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo, a fé atua em diversas áreas cerebrais, principalmente no sistema límbico, que é responsável pelas emoções. Ela ainda reforça o sistema imunológico, prevenindo diversas doenças.

Pesquisas também apontam que quem frequenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana tem 29% mais chances de aumentar seus anos de vida em relação àqueles que não o fazem.

Este grupo apresentou uma nítido diferencial, sobretudo, de comportamento. Os entrevistados que são religiosos apresentaram um comprometimento maior com a própria saúde: iam mais ao dentista, bebiam e fumavam menos. Em suma, tinham hábitos de vida mais saudáveis.

Mas como nos ensina Drauzio Varella, os mesmos fatores psicossociais que promovem os benefícios dos placebos podem dar origem a efeitos indesejáveis, conhecido como efeito nocebo. É o caso das náuseas dos pacientes que vomitam ao chegar no hospital, antes mesmo de entrarem no salão de quimioterapia.

O que com isso queremos afirmar? Que ao descobrir uma doença, é importante que o paciente não se entregue e sempre escolha a opção de acreditar na recuperação, ser otimista e se empenhar mentalmente e fisicamente para reverter a situação. E não precisa necessariamente se apegar a um poder superior ou a uma religião específica, mas acreditar em si mesmo ou até nos outros para dividir os sentimentos em relação à doença, melhora o tratamento. O que a ciência hoje parece apontar é que a fé pode potencializar os efeitos da medicação, porque a mente participa ativamente do tratamento. Esse talvez tenha sido o maior legado da Nara Almeida, que lutou enquanto foi possível contra sua doença.

Um médico não pode prescrever bem-estar, mas pode estimular que o paciente vá em busca de serenidade para encarar um momento difícil. Óbvio que a fé por si só não substitui os remédios e cirurgias que existem. Como ensina Drauzio Varella, hoje nosso maior desafio é entender como a humanização do tratamento, com atenção, empatia do médico e palavras de conforto podem tirar partido da neurobiologia do efeito placebo, juntamente com a prescrição dos medicamentos de alta eficácia à disposição da medicina moderna.

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